André Massaro
SPIVA – O terror
dos gestores de investimentos
A palavra “alfa”, que representa a primeira letra do alfabeto grego, tem um
significado mágico em
finanças. Alfa é uma métrica para avaliação de investimentos,
que pega a volatilidade ajustada pelo risco de um ativo financeiro ou portfólio
e o compara com algum índice de referência (benchmark)
relacionado.
Falando de uma forma superficial e
bastante simplificada, vamos imaginar que faremos uma carteira de ações aqui no
Brasil. Com qual índice compararemos o desempenho dessa carteira para saber se
estamos indo bem ou não? A maioria das pessoas provavelmente responderia “o
Ibovespa”, o que faz todo sentido, uma vez que é o índice mais representativo
de nosso mercado. O Ibovespa será então o nosso benchmark ou “beta”. Nosso objetivo será superar
o desempenho do índice Ibovespa. Essa diferença entre o desempenho da nossa
carteira e o do índice de referência é, grosseiramente falando, o que se chama
de “alfa”, que pode ser positivo (se superarmos o índice) ou negativo (se
ficarmos abaixo dele).
Ao longo de algum período (digamos, cinco
anos), vamos comparar o desempenho da nossa carteira com o índice. Ficamos
cinco anos analisando ações, comprando, vendendo, fazendo operações complexas
em busca do tal “alfa”. Se no final do período constatarmos que nosso
desempenho ficou abaixo do Ibovespa, a conclusão a que chegamos é de que era
melhor simplesmente ter feito uma carteira de ações que reproduzisse a
composição do índice e ter ido fazer algo mais interessante do que ficar
analisando ações e operando na bolsa… Ou seja, era melhor ter adotado uma
postura PASSIVA.
A maioria dos gestores de investimento (e
mesmo investidores individuais) está “procurando alfa”. Todos querem superar os
índices para demonstrar que são bons investidores e que conseguem, com seu trabalho e sua perspicácia, obter retornos
melhores do que simplesmente deixando as ações ou títulos ali quietinhos no
canto deles. A indústria dos fundos de investimentos se baseia na premissa de
que é possível superar os índices e de que vale a pena, para o investidor
comum, pagar “algo a mais” (as famosas “taxas de administração” e “taxas de
performance”) para ter um desempenho melhor do que se ele investisse sozinho e
de forma passiva.
O problema é que, guardadas as devidas
proporções, o alfa é o “ponto G do mercado financeiro”: muita gente acredita
que ele existe, alguns juram que já viram e sabem onde encontrá-lo, mas poucos
(ou ninguém) conseguem demonstrar isso. A briga entre as estratégias ativas de
investimento e uma postura passiva é antiga, e quase todos os estudos
acadêmicos dão vantagem para a postura passiva.
Existem inúmeros estudos comparando as
duas estratégias. Esses estudos já foram feitos em vários países, em vários
períodos diferentes e utilizando diversos índices de referência. Como regra
geral, no longo prazo (usualmente acima de cinco anos) e conforme o estudo, o
percentual de fundos de investimentos ativos que “perdem” de seus índices de
referência costuma ficar entre 60
a 90%.
Muitos gestores de investimentos, como é
de se esperar, ficam p**** da vida quando se menciona esse tipo de estudo.
Respondem que “isso é papo de acadêmico”, que “esses estudos não dizem nada” e
coisas do gênero. A revolta é perfeitamente compreensível, afinal, se a maioria
das pessoas começar a dar mais atenção para esses estudos,
boa parte das pessoas que trabalham no mercado financeiro acabará ficando sem
seu “ganha pão”.
Mas a briga entre investimentos ativos
versus passivos segue feroz. Nos EUA, onde o mercado de ações está há quase uma
década “de lado” e o mercado de renda fixa traz retornos ridículos (quando não
negativos se ajustados pela inflação), esse tipo de comparação tem ganhado cada
vez mais interesse dos investidores, afinal os “betas” são péssimos (os
mercados lá não vão a lugar algum) e não falta gente fazendo promessas de que
consegue superá-los.
Para colocar ainda mais lenha na fogueira,
a Standard & Poors (sim, aquela mesmo) criou há dez anos o SPIVA, que
significa “S&P Indices Versus Active”
(acho que isso dispensa tradução…), um estudo divulgado semestralmente que
demonstra o desempenho dos fundos de investimentos, de várias categorias,
comparados com seus respectivos índices de referência.
É um estudo muito compreensivo e bastante
detalhado, que mostra vários tipos de fundo (tanto de ações quanto renda fixa),
em diferentes períodos de tempo.
A última edição, que apresenta o comportamento
dos fundos americanos até a metade de 2012, pode ser baixada clicando aqui. Alguns pontos de
destaque são:
- Com uma única exceção (que será
comentada a seguir), o percentual de fundos de investimentos que perdeu de seus
índices de referência nos cinco anos anteriores ao estudo, conforme a
categoria, ficou entre 64,58% e 89,94%.
- Apenas os fundos que têm como
referência o índice S&P 500 Value (que é uma “versão alternativa” do
S&P 500 tradicional) tiveram uma razoável performance em cinco anos, com
39,25% deles abaixo do benchmark. Porém, nos últimos três anos
76,57% desses mesmos fundos “apanharam” do índice – é um ponto a ser estudado…
- No caso dos fundos de renda fixa, o
percentual de “perdedores” em cinco anos foi de 51,9 a 97,56%, conforme o
índice de referência.
O estudo ainda mostra outras coisas muito
interessantes, como a quantidade de fundos que muda o estilo de gestão, se funde
com outros ou simplesmente é liquidada no período, mas vamos deixar isso de
fora do artigo, senão é “muita informação”…
Vou terminar este artigo com três
observações finais e uma pergunta.
1 – O presente artigo não deve ser
interpretado como uma defesa pessoal do investimento passivo, apesar de que, eu
confesso, cada vez mais tenho me rendido às evidências. Mas eu ainda mantenho
minha simpatia por algumas metodologias ativas de investimento como otrend following e o value investing.
2 – Eu não sei ao certo qual a motivação
da S&P em patrocinar esse tipo de estudo. Não sei o que eles ganham com
isso, se é que ganham alguma coisa. Mas eu acho engraçado imaginar que os
bancos, fundos de investimento e outros players do mercado não ficam nada
felizes com isso e possivelmente estariam dispostos a pagar à S&P para NÃO
divulgar esse tipo de informação…
3 – A S&P tem versões do SPIVA para
os mercados da Índia e da Austrália, e já adianto: os resultados também não são
muito animadores…
E agora é a hora da “perguntinha sacana”:
Sabendo que existe o SPIVA para outros
países, você gostaria de ver um “SPIVA brasileiro”? Se você respondeu “sim”,
então acesse o formulário de contato da Standard & Poors clicandoaqui e diga para eles o quanto você
gostaria de ter esse tipo de informação disponível também para o mercado
brasileiro.
http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/voce-e-o-dinheiro/

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