Gustavo Cerbasi
Sustentabilidade
começa em casa
Tenho visto a
sociedade debater sustentabilidade com foco apenas na escassez futura de água,
de verde e de ar limpo. Porém, poucas práticas são tão insustentáveis quanto as
tentativas de pessoas e empresas de serem sustentáveis. Afinal, plantar ou
abraçar uma árvore é um bom começo, mas raramente esse começo se repete por
semanas ou meses seguidos. É como se aquele que plantou uma árvore já tivesse
prestado contas com a natureza, voltando a sua rotina de desperdícios e
poluição com menor peso na consciência.
Não vejo sentido em
uma atividade iniciada e não encerrada, seja você um simples trabalhador, uma
grande empresa ou o ministro Cezar Peluso. De sustentáveis, práticas cidadãs
feitas uma ou duas vezes na vida têm apenas a inspiração.
Ser sustentável é mais
do que fazer um gesto eventual pelo fututo. Sustentabilidade começa em casa,
pelo que você fazer para que sua existência não se torne um problema para as
demais pessoas neste mundo. Isso tem a ver com como você aproveita a água, a
energia, os insumos e os alimentos. Mas, tem também a ver com como você lida
com seu orçamento.
Quem
lida de maneira desequilibrada com o dinheiro está criando problemas futuros não
somente para sua vida, mas também para a vida das pessoas com quem convive.
Aqueles que têm dificuldades para poupar serão dependentes da ajuda do governo
ou de seus familiares. Sem cuidar de seu futuro, precisarão de apoio financeiro
e comprometerão o consumo dos filhos, forçando-os também a uma situação de
privações, de dificuldade de poupar e, consequentemente, fazendo com que também
se tornem dependentes da ajuda futura do governo ou dos familiares. É um
círculo vicioso.
Quem planeja e poupa o
suficiente para viver no futuro com o rendimento do próprio patrimônio deixa de
ser um ônus para o Estado. Se gastasse menos com o auxílio às famílias, o
Estado teria mais recursos para administrar o interesse coletivo, incluindo a
preservação do ambiente e o investimento em tecnologias para a
sustentabilidade. Obviamente, essa minha utopia está considerando que, com mais
recursos disponíveis, o Estado buscará o interesse coletivo de longo prazo.
Hoje isso ainda não acontece.
É curioso perceber que
poupar não basta. Aqueles que poupam demais, seja por ganância ou por temor
excessivo do futuro, limitam a circulação do dinheiro na economia. Como
comércio, indústria e serviços faturando menos, o governo tem que investir
pesado em subsídios e políticas de compensação e incentivo. Gastando mais do
que deveria com o equilíbrio da sociedade no presente, o Estado está deixando
de cuidar do futuro. Ou seja, está deixando de adotar políticas de
sustentabilidade.
Costumo afirmar que
gastar demais é tão perigoso quanto poupar demais, e isso tem tudo a ver com a
construção de um futuro saudável para a economia pessoal e da sociedade. É por
isso que a educação financeira não pode se limitar a planilhas, cálculos e
simulações de investimentos, como muitas das primeiras experiências nesse campo
têm sido praticadas nas escolas. Tenho visto métodos eficientes em transformar
gastadores compulsivos em poupadores compulsivos. Infelizmente, um grave erro.
A
essência da educação financeira deve ser a busca do equilíbrio, e por isso
também deveria ser parte dos esforços de sustentabilidade nas escolas e nos
debates. Finanças deveria ser tema de aulas de ciências,
filosofia e estudos da sociedade, objetivando educar os jovens para que tenham
escolhas mais inteligentes e duradouras. Depois disso, caberia discutir o
assunto também nas aulas de matemática. Não é o que vem sendo feito.
No dia em que cada
família souber consumir com qualidade, ou seja, maximizando sua satisfação a
cada compra, aproveitará melhor o que consome e, consequentemente, consumirá em
menor quantidade. Isso naturalmente já contribui para o meio ambiente, sem
muito esforço adicional. Nesse caso, se abraçar uma árvore lhe faz feliz,
continue fazendo-o, nem que seja apenas pelo seu bem estar pessoal.
http://www.maisdinheiro.com.br/artigos/sustentabilidade-comeca-em-casa.html

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